Leitura e psicologia do cavalo

Autor: 
Pedro Flores

Pedro Flores é  formado em Gestão em Equinocultura e graduando em Medicina Veterinária.

 

 

Existem leituras corporais que nos ajudam a entender e fazer com que possamos entender o animal, e essas leituras vieram surgindo de acordo com que as pessoas foram se aprofundando no dia a dia do animal, em seu cotidiano e na maneira com que ele se relaciona com outros de sua espécie, e é essa leitura que iremos observar aqui.

De acordo com a sua natureza e hábitos de vida, se a gente for analisar um cavalo, partiremos do princípio que temos de que o cavalo é uma presa. Ao observar um cavalo um dia inteiro ou um grupo deles, iremos observar que eles estão sempre perto, que existe um líder, que é sempre o primeiro a comer, o primeiro a explorar algo ou lugares novos e que todos seguem seus passos. Anatomicamente e naturalmente se olharmos um cavalo, veremos pontos significativos para uma analise e uma futura comunicação, pontos chaves a serem observados.

 

Começando pela cabeça analisamos que cavalos possuem:

Olhos: São laterais, ou seja, eles ficam ao lado de sua cabeça, isso nos mostra que eles têm uma visão favorável em grandes distâncias, consegue ver um futuro predador de longe, e em um raio de 360 graus, porém essa posição de seus olhos é desfavorável em distancias curtas, pois existem dois pontos cegos que para serem eliminados, de modo que os cavalos precisam movimentar sua cabeça para compensar, por isso que não devemos chegar a um cavalo pela frente ou por trás, pois provavelmente não seremos vistos e podemos assustar o animal que em seu instinto de defesa pode acabar nos machucando.

Orelhas: As orelhas dos cavalos são o principal meio de “observação” dele, então para onde sua orelha estiver direcionada, é aonde o cavalo está prestando atenção. Logo, se o cavalo está focado em você, certamente uma orelha estará virada em sua direção. Isso nos ajuda a entender e observar no que ele está preocupado ou em estado de alerta. Elas também reagem em um estado de ataque ou de estresse profundo onde elas ficam “murchas’’, ou seja, voltadas para trás, quase encostadas ao pescoço, assim nos mostrando um importante sinal de desconforto, estresse e raiva.

Narinas: Bem, as narinas dos cavalos servem para captar o cheiro das coisas e também para emitir barulhos, sejam eles para espantar uma presa ou alertar o seu grupo a uma possível ameaça. Em muitos casos que fazemos movimentos repentinos perto de nossos animais, conseguimos ver o animal emitir um som tipo de um ronco para nós, e assim nos mostrando que ele se assustou que aquilo pode ser uma ameaça a ele.

Pelos sensoriais: Como dito a cima, os cavalos possuem pontos cegos, e para eliminar esses pontos cegos eles necessitam mexer a cabeça, mudando o ângulo e direcionando ao ponto que querem observar. É dessa maneira que seus pelos ajudam, eles limitam os movimentos dos cavalos, pois toda vez que tocado em algo, o cavalo se situa e desvia do obstáculo. É muito comum, em cavalos domesticados, de esses pelos ou barbas serem aparados. Em locais já conhecidos pelos animais não há problema, porém caso ele seja remanejado para algum lugar desconhecido, pode acabar batendo em algum lugar que não enxergou. Esses pelos são grossos e ficam localizados a frente dos olhos, na parte inferior da cabeça e ao redor de seu focinho, lábios e narinas.

Lábios e boca: A boca do animal além de servir para morder, também tem seu ponto importante na leitura de sinais, pois é através dela que os animais emitem um sinal de relaxamento. Um cavalo que boceja e masca, isto é, faz movimentos de mastigação, porém, sem alimentos em sua boca. Isto significa que ele está em um elevado nível de relaxamento e confiança naquilo que você está fazendo.

Patas: São animais de patas compridas, inclusive, um cavalo recém nascido, ou seja, um potro, se observarmos, suas patas são desproporcionais ao tamanho de seu corpo, ou seja, um potro nasce com 10% do seu tamanho adulto e em 15 a 120 minutos o potro já está de pé e correndo. Essa diferença vai se tornando mais equivalente conforme vai crescendo, isso acontece devido à sua defesa, à fuga. O cavalo foi desenvolvido a chegar a altas velocidades rapidamente e com uma grande agilidade para saltos e curvas, assim facilitando sua fuga em ataques de predadores. Visto isso podemos ressaltar que sempre a primeira reação do animal será a fuga, então muitas pessoas que levam coice ou mordidas de cavalos, com raras exceções, acontece porque de alguma maneira acabaram encurralando ou coagindo o cavalo de uma forma em que eliminou todas as possibilidades de fuga que ele pudesse ter, e em um ato de desespero ele acabou atacando. Com isso precisamos observar se não estamos invadindo o espaço do cavalo, que nos avisará, murchando suas orelhas, batendo suas patas no chão, cavando, ameaçando um ataque, tentando morder ou virando de costas para nos escoicear, ao contrário dos jumentos, que possuem membros pequenos, logo não atingem grandes velocidades e por isso tendem a enfrentar os predadores, onde, por isso, geralmente burros e mulas, que são frutos do cruzamento entre jumentos e éguas, tem uma tendência a serem mais difíceis à doma.

Alimentação: Podemos observar na natureza que o cavalo come quase que seu dia inteiro, pastando media de 12 a 15 horas por dia, isso é porque o cavalo possui seu estômago pequeno, desenvolvido a uma grande quantidade de curtas refeições, isto é, o cavalo come muitas vezes ao dia, porém em pequenas quantidades. Esse hábito e essa anatomia mantém o cavalo sempre leve, assim permitindo eficiência em sua fuga a qualquer hora. É devido a isso que muitas vezes que os cavalos domésticos são encocheirados acabam se tornando agressivos ou desenvolvendo alguns vícios, porque um animal que naturalmente foi criado para ser solto, andando de um lado a outro e comendo grande parte do seu dia, acaba se sentindo entediado quando é preso por muito tempo e em um local que, como o normal hoje em dia, limita as horas das refeições, isto é, o animal não pode andar e nem passar seu tempo comendo, o que iria acabar distraindo-o. Outro problema comum que esse sistema faz é o aparecimento de cólicas, pois o animal que foi desenvolvido a comer pequenas porções de alimentos um dia inteiro acaba sendo forçado a comer porções maiores de alimentos, inclusive alimentos industrializados (ração), que não eram de sua natureza, em tempos determinados por seus donos ou tratadores.

Os equinos são animais que por natureza são muito sensitivos e observadores, sendo capazes de sentir uma pequena mosca pousar em seu corpo. Outro fato que destaca muito a sensibilidade dos equinos é a capacidade de perceber o estado emocional de outro indivíduo através de uma leitura corporal, cheiro e até mesmo capazes de sentir batimentos cardíacos e vibrações emitidas no solo através dos passos. Isso tudo ocorre devido a glândulas sensoriais espalhadas por todo seu corpo além de eficientes narinas e orelhas que fazem um movimento de 180 graus e um amplo campo de visão. Outra curiosidade está no fato que os equinos defecam de forma involuntária e conseguem realizar essa tarefa em movimento. Além dessas curiosidades, os equinos possuem uma excelente memória, e são capazes de lembrar fatos importantes anos depois dos mesmos terem ocorrido.

Pedro Flores

bfpedroflores@gmail.com

Artigo publicado originalmente no www.vetdadepre.com.br