Não abandone seu animal só porque ele envelheceu - Entrevista com Denise Pereira Leme

Autor: 
Maurício de Alcantara Pereira

Durante meu trabalho de fotografar cavalos para publicação de anúncios no site, visitei os mais variados tipos de locais de criação e manutenção dos mesmos.

Desde grandes proprietários de Ranchos, Haras à pequenos proprietários de sítios com cavalos que usam apenas para passeios. Nessas visitas, pude perceber as mais variadas formas de tratamento dado a cavalos e éguas com idade avançada, e que já não são mais utilizados no dia a dia para trabalhos ou provas. Alguns desses animais, com mais de 15 anos, ficavam em baias, outros em piquetes ou soltos no pasto, e variados tipos de tratos. Isso me deixou com uma dúvida.

Como seria a maneira ideal de tratá-los afim de dar-lhes uma velhice saudável?

Em busca de esclarecimentos, encontrei Denise Pereira Leme, professora do Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal de Santa Catarina e que participa do LETA/UFSC, Laboratório de Etologia Aplicada, já com trabalhos publicados em vários meios. Alguns questionamentos foram feitos via e-mail, que acabaram se tornando tema de trabalho de sua turma do LETA, que elaboraram as respostas.

Acredito que através dessas respostas, muitos proprietários poderão se ajustar e transformar a velhice de seus  companheiros, dando-lhes muito mais saúde.

1) A partir de qual idade o animal deve começar a ser poupado de atividades de trabalho ou competição?

É uma pergunta complicada, pois depende da atividade e intensidade exigidas do cavalo durante sua vida. Cada esporte exige uma idade adequada para os inícios de treinamento (doma) e tempo de vida para dedicação ao esporte, consequentemente, os desgastes são diferentes também. Porém, podemos considerar que o cavalo já está em uma idade avançada e deve começar a ser poupado a partir dos 16 anos. Isso não quer dizer que o cavalo não possa ser utilizado em atividades mais leves, como passeios calmos ou equoterapia. Mas deve-se dosar o esforço exigido do cavalo para que não haja estresse ou fadiga. Tais atividades não devem ultrapassar 4h ao dia. Um cavalo pode viver facilmente por, aproximadamente, 30 anos. O mínimo que podemos fazer por nosso animal é proporcionar uma “aposentadoria” merecida e uma boa qualidade de vida, visando o bem-estar em retribuição aos anos de alegria e bons momentos que eles nos proporcionaram.

2) Quais problemas passam a apresentar com o avanço da idade?

Depende muito das práticas que ele teve ao longo da vida e principalmente do manejo. As doenças que envolvem os sistemas digestivo, respiratório e musculoesquelético são as mais frequentemente observadas. A redução da capacidade de digestão e absorção de nutrientes essenciais, o desgaste dos dentes, as gastrites (muito mais frequentes do que os proprietários imaginam), as doenças alérgicas como resultado do confinamento em baias por muitos anos e os problemas relacionados com as atividades físicas, principalmente problemas crônicos ou mal curados dos ossos, músculos e ligamentos. Esses são os principais fatores que podem colaborar para o surgimento de doenças. Em cavalos com idade avançada, os dentes podem ficar gastos e, consequentemente, começam a apresentar falhas que causam alterações na forma de ingestão de certos alimentos. Com isso, eles acabam demorando mais para se alimentarem e ingerindo o alimento não triturado adequadamente. Pela demora em comer, o ideal é que sejam separados de cavalos de outras idades para se evitar a competição entre eles. Problemas no trato gastrointestinal como cólicas e gastrites são frequentes em cavalos mantidos em baias. As cólicas podem surgir se a rotina ou alimentação do animal for mudada de forma brusca. Para cavalos idosos, o melhor é diminuir as porções e aumentar o número de vezes que estas pequenas porções são oferecidas ao longo do dia. O cavalo idoso também pode apresentar uma redução da capacidade de manter a temperatura corporal ideal. Portanto, é importante assegurar que ele tenha diferentes formas de abrigo de acordo com as condições climáticas da região, não pode faltar sombra e proteção a ventos. Com o surgimento das doenças respiratórias alérgicas, aumentam-se também as chances de doenças causadas por agentes infecciosos, e por isso as vacinas contra as influenzas e herpesvírus são importantes. Problemas articulares e tendíneos devido aos esforços e lesões do passado podem trazer dificuldades de locomoção para o cavalo e por isso as atividades nessa idade devem ser sempre bastante comedidas. A avaliação frequente dos cascos, com ou sem o uso da ferradura, ajuda a manter a saúde dos cascos. Outras alterações das funções fisiológicas como aumento da ingestão de água e aumento da frequencia de micção associadas à apatia, mudanças de comportamento, emagrecimento ou aumento excessivo de peso devem sempre ser investigadas, pois não são raros casos de tumores e disfunções orgânicas em cavalos idosos.

3) Como tratá-los?

Cavalos que tiveram uma vida agitada não devem ser abandonados ou esquecidos sem nenhuma motivação para viver. Providencie espaços apropriados onde ele possa estar na companhia de outros cavalos ou animais de outra espécie, essa atitude vai evitar que o animal se sinta solitário ou vulnerável. É muito importante que ele não seja simplesmente abandonado no campo, faça uma supervisão pelo menos duas vezes ao dia. Medidas preventivas com a saúde do animal devem ser mantidas, portanto continue com os programas de vacinação e controle de endo e ectoparasitas. Evite que o cavalo tenha contato com poeira ou mofo, e o mantenha longe das baias e dos fenos. Esse manejo irá ajudar na prevenção de doenças respiratórias. Já os problemas com o trato gastrointestinal podem ser minimizados mantendo o animal em pastoreio e proporcionando a ele uma alimentação com ração suplementar em poucas e freqüentes quantidades. Os problemas musculoesqueléticos e metabólicos podem ser tratados com o acompanhamento de um médico veterinário que irá apontar o diagnóstico e o tratamento corretos. O cavalo deve manter seu peso ideal, pois a obesidade pode aumentar o esforço nas estruturas locomotoras. Animais idosos são mais sensíveis e não se pode perder tempo; chame o veterinário quando houver qualquer sinal de alteração.

4) No caso de um animal saudável, mesmo assim alguns cuidados devem ser mudados? O que fazer?

Com o envelhecimento, o cavalo idoso pode ser mais exigente com relação à palatabilidade dos alimentos. Neste caso, a mudança na dieta deve ocorrer gradativamente e de acordo com suas exigências nutricionais. Além disso, por apresentarem diminuição da capacidade digestiva, recomenda-se fornecer feno e ração de alta digestibilidade e água limpa à vontade. Recomenda-se que o pastoreio seja separado dos cavalos mais novos, pois se juntos acabam comendo por último devido à grande agilidade dos mais novos. Não se deve esquecer-se de fazer inspeções diárias do corpo do animal e do ambiente. Escovar o pêlo diariamente é uma boa maneira de manter a higiene do animal retirando assim os pêlos velhos para que a pelagem seja renovada, evitar problemas de pele e ao mesmo tempo fazer desta atividade um momento de atenção e carinho ao animal, proporcionando ao cavalo um momento de segurança e prazer. Devido à diminuição da massa muscular os cavalos idosos tendem a sentir mais frio, sendo assim, devem ser recolhidos à noite e abrigados em locais protegidos de chuva e vento. Durante o dia é aconselhável ter atenção para garantir sombreamento e abrigo. Entretanto, a baia é local proibido para aqueles cavalos com problemas alégicos. O animal deve periodicamente ter assistência veterinária, pois com a idade a suscetibilidade ao aparecimento de dores crônicas e outras doenças podem ser mais constantes. O controle parasitológico e as vacinações regulares não devem sofrer alterações e podem ser realizadas junto com os mais jovens. Tratando-se das patas, o casqueamento deve ser feito mensalmente, impreterivelmente. Já o ferrageamento deve ser feito somente se o cavalo possuir rotina de se locomover sobre superfícies muito duras e desgastantes como asfalto ou chão com muitas pedras. Caso o cavalo seja mantido somente em pastoreio, o uso de ferraduras não é necessário, mas o casqueamento, sim. Além destes fatores é importante ficar alerta com as mudanças bruscas no ambiente onde ele vive, pois com a idade, os cavalos ficam mais sensíveis ao estresse, o que pode resultar em problemas sérios na saúde. Não se pode deixar também de fazer a manutenção dentária pelo menos uma vez ao ano. Com a idade avançada os desgastes dentários são comuns e se não corrigidos podem prejudicar ainda mais as funções digestivas. Para um bom bem-estar animal é fundamental que o cavalo tenha companhia, não esquecer que outro cavalo, outros animais e até mesmo o ser humano são importantes para ele. Enfim, o melhor a se fazer é manter o animal a campo e estimulá-lo para que ele possa se exercitar espontaneamente e descansar de acordo com suas vontades e necessidades, para que desta forma possa desfrutar com prazer esta fase boa da vida.

5) A alimentação deve ser modificada? Por que?

Sim, principalmente se o trabalho do animal for diminuído ou interrompido e a ele for atribuído o descanso, com a manutenção apenas de movimentos de seu comportamento natural. Porque sempre deve haver a mudança na alimentação do animal quando se altera o nível de trabalho realizado. No caso de um cavalo atleta, a mudança nunca pode ser repentina, pois esse cavalo provavelmente recebia – ou, no mínimo, deveria receber – uma alimentação apropriada, com componentes na ração que lhe proporcionassem energia para a realização dos exercícios. Deve haver uma redução gradativa e conjunta do trabalho mais forçado e dessa alimentação própria para a atividade. Em vida livre ou pastoreio, os cavalos normalmente ingerem pequenas quantidades de alimento por longos períodos do dia e da noite. Ao estarem estabulados, eles são forçados a se alimentar em horários pré-determinados para facilitar o manejo ou respeitar a prática de atividades. Sem a obrigação das atividades físicas, esta transição deve ocorrer de forma gradativa (15 dias), para que o próprio organismo se acostume de volta ao manejo natural.

6) Quais as características dessa nova alimentação?

Algum componente (FIBRAS, PROTEÍNAS ETC...) deve ser retirado ou diminuído? Alguma substituição ou aumento? A quantidade de proteína e energia deve diminuir aos poucos de acordo com o que ele recebia e da diminuição das atividades físicas, pois agora ele não terá mais a mesma intensidade de trabalho. Se for fornecido ao animal o direito de liberdade ao pasto, que este espaço tenha boas forrageiras e se necessário, se faça uma suplementação com ração, mesmo assim a quantidade de ração para um cavalo “aposentado” não deve ultrapassar 1% do seu peso vivo. Se o pastoreio for escasso, um bom volumoso verde e não picado deve ser fornecido à vontade. Lembrando que um cavalo com problemas alérgicos deve ficar longe também dos fenos.

7) Um cavalo de grande atividade deve estranhar ao ser retirado das mesmas. Como fazer para que ele passe por essa transição de um modo confortável?

A transição deve ser sempre gradual, pois situações novas não devem ocorrer repentinamente. Devido ao hábito a atividades intensas, existe a necessidade da manutenção de exercícios leves com duração de 30 minutos a 4 horas diárias, com chances de diminuir o limite máximo para 1 hora diária. A aposentadoria direta para o pasto gera ansiedade e desmotivação. Portanto, o cavalo pode permanecer nas instalações com outros cavalos em atividade e que a ele sejam permitidos passeios guiados durante os períodos de maior agitação no recinto. As escovações diárias e contato físico e/ou visual com cavalos ou outros animais seriam uma maneira de melhorar seu bem estar. É importante que ele possua um espaço aberto, um piquete ou uma pista onde ele possua abrigo, sombreamento, verde fresco e água limpa à vontade e que ele possa correr, deitar-se, brincar, ou seja, expressar com naturalidade seus movimentos, sem estar isolado.

Entrevista feita por Maurício de Alcantara Pereira