Emoções e Sentimentos dos Animais

Autor: 
Dr. André Cintra

Como todos os animais, e a ciência o comprova em estudos bem recentes, o cavalo é um ser senciente (que tem a capacidade de ter sentimentos) e que possui consciência do mundo que o cerca (ainda se discute muito se o cavalo, ou outros animais, têm consciência de si mesmo, mas aí vamos para um ramo complexo e talvez filosófico, que pode ter pouca importância para o fato em discussão).

 
 O cavalo é o que é hoje baseado em quatro preceitos que o nortearam em toda sua vida evolutiva: necessita de liberdade, é gregário, presa e é herbívoro, se alimentando de fibras. É por causa desses preceitos que se permite a conexão com ele quando se isola-o, especialmente pelo fato de ele ser presa, que busca a convivência social, o que facilita a sobrevivência.
 
 Até alguns anos atrás, considerava-se que os animais eram desprovidos de quaisquer sentimentos. Isso vem de longa data, discussão muito antiga. Pitágoras, no século VI AC, pregava o respeito aos animais. Aristóteles, século IV AC, afirmava que, sendo os animais irracionais, não tinham interesse próprio, existindo apenas para servir ao homem.
 
Mais ‘recentemente’, século XV, Bogeas dizia que os animais tinham os mesmos direitos que os humanos. Déscartes, no século XVII, afirmava serem os animais desprovidos de alma, portanto não pensam, não sentem dor, sendo como máquinas, o que justificaria  plenamente os maus tratos, afinal, sem dor, não há maus tratos. Rousseau e Voltaire, contrapondo-se a Descartes, defendiam a denominada senciencia (capacidade de ter sentimentos) dos animais, chamando àqueles (Déscartes especialmente) de ‘pobres de espírito os que acham que os animais são máquinas, que não pensam, nem possuem sentimentos’. No século XVIII, Benthan diz que ‘a dor animal é tão real e moralmente relevante como a dor humana, e que a capacidade de sofrer e não a capacidade de raciocínio, deve ser a medida para como nós tratamos outros seres’. Ainda neste século, Kant que elaborou o denominado ‘código moral’, exclui os animais desta conduta, ou seja, moralidade é o que se faz ao homem, não aos animais. No século XIX, Schopenhauer, coloca que ‘os animais têm a mesma essência que os humanos, a despeito da falta da razão’ e ainda se contrapõe ardorosamente a Kant dizendo ‘Amaldiçoada toda moralidade que não veja uma unidade essencial em todos os olhos que enxergam o sol. Entretanto, é impossível falar de emoções e sentimentos sem falar sobre comportamento, pois este é moldado por aquele, e vice-versa.
 
 
 Deixando de lado a filosofia e indo para a área da ciência comportamental, historicamente o estudo e observação do comportamento animal pode-se dizer que começou a ser abordado e citado de forma científica a partir do século XIX, inicialmente por Lamark, em 1809 (cujos conceitos estão sendo revistos e mais respeitados à luz dos conhecimentos do século XXI), depois por Darwin em “A Origem das Espécies”, de 1852, que, baseandose na imitação, curiosidade, atenção, memória e raciocínio nos animais que ele observou por todo o mundo, coloca que “nos animais superiores, as faculdades mentais, ainda que diferentes, não deixam de ser da mesma natureza que as faculdades mentais da espécie humana”. Aqui já se observa uma chamada para a racionalidade do animais, fato contestado até este início do século XXI, pois exceto os humanos racionais, os animais sempre foram chamados de irracionais (estudos atuais já contestam cientificamente a exclusividade da racionalidade dos humanos – claro que a racionalidade animal é diferente e não tão elaborado como o ser humano, mas que ela existe, isso existe).
 
 
 Romanes, em 1882, publica o livro ‘Animal Intelligence”, onde se destaca a colocação ‘as atividades dos organismos não humanos eram análogas às atividades humanas e os estados mentais associados a essas atividades estavam presentes em outras espécies’. A partir daí, parece-me que houve um grande retrocesso, pois praticamente todos os cientistas que se destacaram no estudo do comportamento discutem apenas a superfície sem chegar à essência. Temos, em 1891, Loeb com seu ‘mecanicismo biológico’; em 1897 Pavlov com seu reflexo condicionado; em 1909, Uexküll, com sua Teoria do mundo próprio; em 1911, Thorndike com seu trabalho com labirintos, estabelece a Lei do Efeito; em 1913, Watson, fundador da escola Behaviorista, trabalha com a meta da previsão e controle do comportamento (para uso em humanos, mais especificamente); já com respeito aos animais, nas décadas de 30 a 50, Lorenz e Thimbergen, fundadores da escola etológica, defendem uma escola objetivista, onde o comportamento animal pode ser explicado por mecanismos inatos (isto é, nascem com os animais – ou os animais nascem sabendo); é seguido por Skiner, fundador do Behaviorismo Radical, que defende que o comportamento é uma resposta exclusiva ao ambiente que cerca, colocando que ‘Os homens agem sobre o mundo, mudando-o, e por sua vez são modificados pelas consequências de suas ações”.
 
Alguns outros seguem em muitas direções semelhantes e outros distintas.  Pessoalmente, ouso dizer que todos estão isoladamente, integralmente errados, MAS a somatória de todas estas pesquisas, estudos e definições, compõem em maior ou menor proporção, o comportamento animal.
 
 Com relação especificamente às emoções e sentimentos, Darwin já estabelecia que os animais possuem 06 sentimentos básicos: Surpresa , Felicidade, Tristeza , Aversão , Raiva, Medo. Mais recentemente, Jaak Panksepp nomeia 07 sentimentos básicos: Busca, Raiva, Medo, Pânico, Brincar, Cuidados , Luxúria.
 
 A pesquisadora científica Temple Grandim, um dos maiores nomes do comportamento animal de nossa era, é quem mais trabalha nesse sentido relacionando emoções, sentimentos e comportamento como fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal e todos juntos são responsáveis pelas atitudes do animal em relação ao meio.
 
Temple Grandin
 
 Uma discussão recente, abordada por cientista europeus que comprovam que cavalos sentem depressão e estando buscando esse entendimento para tratar a depressão humana. Aprofundando um pouco mais com relação ao tema depressão e quais sentimentos os animais possuem, cientificamente, quer sejam por observação ou não, são aceitos os citados acima por Darwin e Panksepp, mas vou mais longe, percepção pessoal oriunda de alguns anos de convivência com animais e aprofundado por leituras e estudos: ouso dizer que os animais possuem todos os sentimentos e emoções que os humanos possuem. MAS, e aqui cabe uma grande ressalva e compreensão, SÃO SENTIMENTOS DOS ANIMAIS. Podemos até dar nomes humanos para os sentimentos e emoções dos animais, porém, JAMAIS devemos achar que eles os sentem como os humanos os sentem. Sendo assim, um cavalo sente dor, ódio, raiva, amor, ciúmes, depressão, medo, etc.etc., como um cavalo, baseado na evolução de um cavalo. A forma como os sentimentos e emoções evoluem em uma espécie, é a forma mais eficiente que permitiu a sobrevivência desta espécie nos milhões de anos de processo evolutivo dela. E
 fica claro que a forma de sobrevivência do cavalo foi diferente da do cão, que é diferente da do gato, que é diferente da do bovino, do caprino, do homem, etc.etc.
 
 Em um fórum equestre a que faço parte, foi-se questionado se animais na natureza têm depressão. A resposta é sim. Exemplo: uma mãe diante da perda de um filhote por motivos alheios à sua vontade. Ou ainda a perda de um membro do rebanho, quer sejam aves ou mamíferos podem levar à depressão de um ou mais indivíduos do rebanho, dependendo do grau de ‘amizade’ entre eles. Como em toda sociedade, o que permite a sobrevivência da espécie é a organização social, e como em qualquer sociedade organizada, existem graus de hierarquização, e onde um animal pode ser mais achegado a outro (permita-me aqui utilizar nomenclaturas humanas e em português para citar as atitudes, pois não sei descrever em cavalês ou outra ‘língua’ animal).  Com relação à comunicação equina, para se falar melhor o cavalês, devemos entender como os animais se comunicam. Eles o fazem utilizando de seus seis sentidos: Visão, Audição, Olfato, Tato, Paladar e Empatia.
 
 Do ponto de vista da psicologia humana, EMPATIA é definida como ‘colocar-se no lugar de alguém’. Do ponto de vista etimológico, esta definição está errada, pois EMPATIA vem do Grego EMPATHEIA, “paixão, estado de emoção”, formado por EN-, “em”, mais PATHOS, “emoção, sentimento”; a ideia é estar “dentro” do sentimento alheio, ou ainda ‘sentir o que o outro sente’.
 
A psicologia humana, com sua definição, busca racionalizar a emoção, pois ‘colocar-me no lugar de alguém’ exige reflexão e racionalidade do que e como a pessoa em questão age e reage às diversas atitudes e momentos do mundo que a cerca. A concepção do ‘sentir o que o outro sente’, é um estado puramente emocional e expressa claramente como os animais nos percebem, porque nossa atitude e postura ao se aproximar de um animal podem definir a forma como ele reage, pois ele ‘percebe’ nossas intenções e estado emocional muito antes de os tocarmos. E este ultimo sentido é que explica o porque, ao controlar sua respiração e seu estado emocional, isso permite que nos
 acheguemos com mais facilidade do animal.
 
 
 A racionalidade dos animais vem sendo observada e, apesar de ainda não cientificamente comprovada como muitos assim o exigem, está cada vez mais a ser aceita e menos discutida. Uma questão que sempre se posiciona contra essa racionalidade, tem relação com a consciência dos animais. Como pode existir racionalidade se não há consciência,  ou ao menos prova da consciência dos animais? (curiosamente, até há poucos meses não havia se comprovado a existência da consciência dos humanos, mas esta nunca foi questionada – por motivos óbvios, pois se estou aqui a escrever, e você a ler isso, é porque temos consciência de algo). Mas nestes últimos meses, um dos maiores cientistas do mundo atual, tido como um novo Einstein do século XXI, o canadense Philipe Low, em um trabalho com o físico Stephen Hawking, conseguiu mapear a consciência dos humanos. Utilizando o mesmo método em animais, ele observou que as áreas aceitas como responsáveis pela consciência dos humanos são ativadas também nos animais sob os mesmos estímulos, o que comprova, agora de forma científica, que os animais possuem consciência.
 
 E por fim, se tivestes a paciência de chegar a esse ponto, gostaria de chamar a atenção para um dos principais fatores que permite que o cavalo se aproxime de nós e que obtenhamos dele uma resposta positiva. Tem a ver com a necessidade de liderança. Toda sociedade animal exige um comportamento social com uma organização social eficaz, e essa eficácia é traduzida pela sobrevivência do grupo, e pelo estabelecimento de uma hierarquia no grupo, onde temos estratificação de quem lidera e quem é liderado, e isso ocorre em diversos níveis, e não apenas um manda e todos o seguem.
 Os cavalos estão sempre em busca de um líder, que seja confiável e que permita a convivência pacífica e que disponibilize todos os proventos necessários para a sobrevivência.
 
 
 A observação principal que faço, e aqui na verdade é mais uma crítica a um personagem cultuado e que se diz ser 'o cara' no trabalho com cães e que é citado por muitos como ídolo e exemplo do que se pode e deve fazer com animais, que é o Cezar Milan. Acho que ele conhece muito da teoria comportamental de cães, mas faz muita coisa ruim, de forma sutil, para conseguir obter a atenção e a liderança dos animais, pois ele utiliza muito de violência para repreender, conter e ensinar os animais (em um de seus livros Temple Grandin faz observação semelhante; não tão explícita, mas condena o método dele).
 
 Vou utilizar de uma metáfora para compreender melhor o método de Cezar Milan. É a diferença entre líder e chefe. Líder todos seguem, pois o respeitam e amam, se ele pede, você o faz porque quer, deseja e reconhece como algo importante que precisa ser feito; Chefe, quando ele pede, obedece quem tem juízo. O Cezar utiliza de muita violência, sutil, subliminar muitas vezes, mas ainda assim violência, para submeter os animais a seus desejos. O problema aqui é que os animais sempre reagem como a lei de Newton, da ação e reação; a ação que eu aplicar em um corpo (no caso em um animal), gera uma
 reação contrária, de mesmo tipo e intensidade. Então, se eu for calmo e tranqüilo ao manusear um cavalo, a resposta esperada é exatamente essa (como bem o observas em teu trabalho); por outro lado, violência gera violência, hoje ou em momento futuro.
 
Victoria Stilwell
 
 Para efeitos comparativos, há uma inglesa, Victoria Stilwell ou ainda a Dra Sophia Yin, que trabalham o animal utilizando o método de Reforçamento Positivo, isto é, a cada resposta positiva do animal a uma solicitação de minha parte, eu o presenteio com agrado e isso gera mais resposta positiva, intercalado com o Reforçamento Negativo, onde ao se ter uma resposta ruim, eu retiro a coisa boa que o cão está desejando (eu o puno retirando o que ele deseja, mas sem afetar a parte física). Cezar utiliza de punição negativa e reforço negativo, onde a cada resposta ruim, eu puno o animal (e ele o faz muitas vezes além do necessário) e a cada resposta boa, eu retiro o estímulo ruim.  Observe a diferença, pois o Cezar sempre trabalha com o lado ruim do estímulo, e apesar de ambos utilizarem o Reforçamento Negativo em comum, o fazem de forma distinta.
 
 E aqui vai outra crítica ao Cezar, na comparação de chefe e líder. Contrário ao que ele pensa, a punição que ele faz é a de chefe, pois é física. A punição mais eficaz, duradoura e que traz respeito por parte do animal, a do verdadeiro líder, é a moral, onde se utiliza muito mais a postura e tom de voz do que a agressão física. E aqui os resultados são diretos e duradouro.
 E aqui chego ao final desta longa missiva, mas o assunto é muito longo, extenso, apaixonante e com muito ainda por aprendermos, de coração e mente abertos. Se tivestes a devida paciência em chegar até aqui, agradeço sua atenção e espero ter contribuído para que possas compreender melhor nossos amigos EQUESTRES.
 

Perfil

André Galvão Cintra é médico veterinário formado pela Universidade de São Paulo em 1991. Foi criador de cavalos quarto-de-milha de 1978 a 1983 e de cavalos mangalarga de 1982 a 1992. Desde 1999 dedica