“Cavalos de Corrida – Uma Alegria Eterna”

Introdução

Desde o início dos tempos, o cavalo tem sido o único animal capaz de provocar emoção estética no homem. De Pégaso, o corcel alado mitológico, “aquele que porta o trovão e o raio”, filho de Posídon e da Medusa – símbolo da impetuosidade dos sentidos e da imaginação criadora – aos “imortais” Xanto e Bálio, que conduzem a biga do herói Aquiles na Guerra de Tróia, a cultura greco-romana sempre esteve impregnada de um misto de curiosidade e fascinação por eles.

Nas artes plásticas, Leonardo da Vinci imortalizou-os em soberbos desenhos que lhes decifram todos os movimentos; George Stubbs captou-lhes a anatomia e principais reações em óleos memoráveis; Picasso os fez, ora altivos e dóceis, suavemente conduzidos pela mão das crianças, ora aterrorizados pela carnificina de Guernica; Degas misturou-os, tensos e alertas antes da partida, à explosão cromática das blusas dos jóqueis; Sir Alfred Munings mostra-os em toda sua majestade de modernos animais de competição; e Roy Lichtenstein, entre tantos outros, retorceu-os e pontilhou-os a pleno galope em sua pop art. Na literatura, é difícil imaginar o cavaleiro de la Mancha sem Rocinante. Shakespeare fez Ricardo III bradar que trocaria seu reino por um. Em nossa língua, Camões dedica-lhes partes de seu canto quando fala da “fonte dos cavalos” nos Lusíadas (1,4).

Na história das grandes conquistas territoriais da humanidade, eles sempre estiveram presentes, desde Alexandre, o Grande, até a solidificação do império romano, montados sem estribo pelas legiões de Césares. Mais tarde, foram eles que permitiriam às hordas tártaras descer das estepes e subjugar a Europa civilizada. Garanhões bretões entraram em Jerusalém com os cruzados, como antes da cavalaria deles a cavalaria árabe, formada por um novo tipo de animal – menor e mais rápido – expandiu o território, do norte da África para limites até então inimagináveis pelo Profeta, chegando à península ibérica e aos Pirineus. Os andaluzesde Hernan Cortez, julgados monstros celestiais pelos astecas, ajudaram o conquistador a apoderar-se do ouro e das terras de Cuautemoc.

Na arte da guerra, até quase a metade do século passado, eles eram o fator primordial a decidir a sorte das batalhas, graças à sua mobilidade e capacidade de choque. Na Idade Média, ser apeado de seu cavalo significava morte certa; no chão, indefeso e impotente, restava apenas ao cavaleiro esperar o momento em que receberia o golpe da maça ou a estocada fatal por entre as juntas da armadura. Em Agincourt, foi isso que Henrique V fez com a cavalaria francesa, provocada em sua honra para o início de uma precipitada carga e depois submetida à implacável nuvem de flechas dos long bows ingleses. Quase cinco séculos se passaram, antes que outro jovem nobre inglês, com pleno sentido de aventura, um certo tenente Winston Spencer Churchill, implorasse aos seus superiores para participar da última carga do exército de Sua Majestade na expedição punitiva contra os derviches. Mais recentemente, George C. Patton, também ele oficial de cavalaria, resolveu ignorar os acertos demarcatórios solenemente firmados em Yalta na Segunda Guerra Mundial e ordenou ao seu III Exército que invadisse os limites da zona soviética para resgatar os tordilhos lipizanners da Escola Espanhola de Viena, trazidos a campo aberto para o lado ocidental em meio ao fragor da batalha. Na verdade, faz parte da educação e da formação do caráter dos príncipes das casas reais do mundo – mesmo hoje em dia – primeiro ensiná-los a montar, para depois ensinar o resto.

Mas o objeto deste livro não é falar de cavalos de um modo geral e sim de um determinado tipo de cavalo, o puro-sangue inglês de corridas, ou Thoroughbred, como chamam os ingleses, certamente a melhor e mais perfeita máquina aeróbica do mundo animal, a única capaz de manter altas velocidades sobre longas distâncias. Tampouco, o leitor encontrará aqui uma rigorosa e ordenada sequência de abordagem do assunto. Isso consta de obras muito mais importantes e completas, a maioria das quais infelizmente editada em língua estrangeira.

Não, não é isso que o livro pretende. A singela intenção do autor é somente a de tentar chamar atenção para o moderno cavalo de corridas, produto final de uma seleção genética de mais de trezentos anos e quintessência da perfeição bio-mecânica. E ao falar deles, mencionar alguns aspectos interessantes do turfe e da poderosa indústria que hoje gira ao seu redor e movimenta cifras astronômicas, mesmo para este nosso perdulário mundo moderno.

Para aqueles que já os conhecem e admiram, sejam eles criadores, proprietários, profissionais da atividade ou o público apostador – estes últimos os responsáveis finais por fazer girar a roda que mantém vivo o esporte – o livro é um reencontro com os mesmos temas e a mesma paixão que nos une a todos. Aos que nunca se interessaram pelos cavalos de corrida, ou ainda não tiveram tempo de perceber quão assustadoramente belos eles podem ser, resta sempre a esperança de que alguma frase contida nos artigos a seguir lhes desperte a curiosidade de saber mais a respeito. Nesse caso, a única promessa que se pode fazer é a de revelar-lhes um novo e excitante universo que, desde os primórdios do século XVII, vem tocando fundo a alma dos sensíveis – de reis e plutocratas, aos mais comuns dos cidadãos do mundo.

A raça puro-sangue de corridas, como hoje a conhecemos, começou a nascer de uma necessidade militar, ou seja, a constatação de que os exércitos, ao final da Idade Média e início do Renascimento, tinham que se deslocar de uma forma cada vez mais furtiva e rápida e, portanto, mais surpreendente para o inimigo. Neste processo, em que a capacidade de choque foi sendo substituída pela mobilidade, em que o importante não era mais simplesmente afrontar o inimigo e sim flanqueá-lo (e, se possível, “envelopá-lo”), o tipo de cavalo de guerra até então usado – normalmente os hunters de sela, massivos e lentos – tinha que mudar. Além disso, a cavalaria passou a desempenhar outras atividades vitais na elaboração dos planos de batalha, a de fazer as vezes de olhos e ouvidos do comandante supremo de qualquer exército (“na neblina da batalha, a questão é saber o que se passa do outro lado da colina”). Sem ela se movendo na vanguarda e ao lado do corpo principal, com seus mensageiros indo e vindo incessantemente para relatar o que viram, aceitar o combate passou a ser um convite ao desastre.

É conhecida na história dos conflitos modernos o papel decisivo dos cuirrassiers de Napoleão, mudando a golpes de sabre e lança o mapa da Europa, para se verem afinal derrotados em Waterloo, graças, em grande parte, aos Light Dragoons e Scots Grey de Wellington, cortando, separando e dispersando os quadrados da infantaria imperial. Da mesma forma, Tuiuti e a famosa “dezembrada” de 1968 (a sequencia de batalhas de Itororó, Avaí e Lomas Valentinas), empreendidas pelo grande Osório – o Marquês do Herval, de “bravura indômita” – selaram a sorte da Guerra do Paraguai.

Corridas de Cavalos em campo aberto e com prêmio em dinheiro já existiam na Inglaterra desde Ricardo “Coração de Leão” (1157-1199) e constituíam marcas de poder e prestigio da nobreza. Henrique VIII, no século XVI, entre casamentos, divórcios, cataclismas políticos, criação de igrejas e decapitação de algumas de suas seis mulheres, encontrou tempo para mandar construir o primeiro hipódromo da Ilha, em Chester.

Somente a partir de 1625, entretanto, é que as inscrições e retiradas dos animais foram regulamentadas, datando de 1750 a fundação do Jockey Clube Inglês, o primeiro clube de seu gênero no mundo. Nesse instante, se inicia a maciça importação e mesmo o confisco de garanhões árabes e berberes que viriam a fixar os pilares da criação do Thouroughbred.

Crê-se que tenha sido utilizado o sangue de mais de 400 desses animais. Do núcleo inicial, porém, apenas três conseguiram se estabelecer como chefes-de-raça: Bierley Turk, de origem turca como o nome indica, castanho; Darley Arabian, árabe, castanho; e Godolphin Arabian, também árabe e igualmente castanho. O resto das linhagens paternas se perdeu na memória do tempo. Quanto às matriarcas, geralmente éguas inglesas de batalha, das 100 inscritas no grande livro da criação e conhecidas como Royal Mares do Stud Book, em 1790, a inegável vocação lúdica e a capacidade de organização dos ingleses cuidou do resto: botou-se ordem na atividade, fixaram-se regras das disputas, estabeleceram-se os locais das principais provas, elaborou-se um calendário anual e a tabela de pesos por idade e sexo e, finalmente, adotou-se o conceito de que só poderiam participar dos futuros confrontos aqueles animais cujas origens estivessem claramente identificadas no Stud Book.

Dos três principais ascendentes, promanam os cavalos de corrida de nossos dias, através dos ramos básicos, representados por Herod, castanho, quarta geração de Bierley Turk; Eclipse, alazão dourado, quarta geração de Darley Arabian; e Matchem, castanho, segunda geração de Godolphin Arabian. Pelo fato de ser um híbrido – produto da mistura de sangues de origens diversas dentro de uma mesma espécie – o Thoroughbred guarda algumas características marcantes de seus primeiros ancestrais. Tais características podem ser melhor notadas observando-se, principalmente, a forma e o tamanho das cabeça do animais: a testa convexa e as orelhas pequenas, normalmente viradas para dentro, corresponde à dos cavalos árabes que estão na origem da raça; a côncava, julgada rude pelos puristas, provém das linhagens bérberes do norte da África. Nenhum desses sinais estéticos, porém, significa qualquer garantia de performance nas pistas.

Alguns criadores do puro-sangue, inicialmente na Europa e depois na América, notabilizaram-se por obter, de forma permanente e continuada, notáveis corredores. Seu êxito foi tal, que eles podem ser considerados como os verdadeiros construtores do cavalo de competição de nossos dias. A visão particular de cada um, os métodos, conceitos – e inclusive os segredos – empregados na atividade duraram, porém, o tempo de suas vidas. Por não se tratar de uma ciência exata, criar bons cavalos de corrida sempre dependeu muito mais da capacidade de observação e mesmo da intuição das pessoas, do que de regras padronizadas de conduta. Parece evidente que afluência econômica para garantir as melhores terras e acesso às melhores matrizes e linhagens conta muito; entretanto, é a capacidade de combinar de modo efetivo todas essas variáveis que faz a diferença entre fracasso e sucesso no desempenho do ofício. É este o caso do Lord Derby, de Marcel Boussac, de Frederico Tesio, do Aga Khan e de Arthur Hancock.

Edward, décimo Conde de Derby (1865-1948), confessava ter duas ambições na vida: ganhar o Derby de Epsom – o blue riband of the turf, como chamou Disraeli – e ser primeiro ministro. A primeira, ele a satisfez três vezes com Sansovino, Hyperion e Watling Street; a segunda, foi-lhe negada pela política, embora tenha participado de vários gabinetes e exercido um sem número de cargos no governo de Sua Majestade. De físico avantajado e robusto, um permanente sorriso a iluminar-lhe a expressão, Eddie Derby tinha tudo o que um cavalheiro inglês aprecia em seus pares: espírito público, generosidade, o uso com responsabilidade do privilégio das origens, fortuna pessoal, boa saúde e grandes cavalos de corrida. Em seu tempo, costumava-se dizer que se alguma catástrofe viesse a extinguir a família real, ele seria o único substituto aceitável pelo povo como monarca.

Sua contribuição para o aparecimento de um novo modelo de Thoroughbred é decisiva na história do turfe. De seus campos de criação saíram animais que revolucionaram o esporte nos dois lados do Atlântico, como Swinford, o pequeno Chaucer, o sprinter Phalaris (nove vezes vencedor entre 1.000 e 1.200 metros), Hyperion, Pharos, Fairway, Sickle, Pharamond, Colorado e dezenas de outros indivíduos notáveis. Defendendo a famosa blusa preta, boné branco, os cavalos de Lord Derby venceram seis vezes os 1000 Guinéus, duas vezes o Oaks e os 2000 Guinéus, três vezes o Derby e seis vezes o St Leger, entre 1916 e 1943. Mas o impacto internacional desses animais na criação foi muito maior que suas vitórias nas pistas: os descendentes do minúsculo Hyperion dominaram o panorama clássico mundial na segunda metade do século XX; Swinford fundou uma poderosa dinastia através de seu filho Blandford; os magníficos Nearco e Pharis – ambos filhos de Pharos – constituem a mais importante influência em linha paterna de que se tem notícia no universo das corridas; a linhagem Fairway, hoje caminhando para a extinção, ainda assim produziu ganhadores de Derby como Grundy, Troy e Shergar na década de 1970; Sickle, filho de Phalaris, exportado para os Estados Unidos junto com Pharamond, está na raiz da mais famosa e prolífica linha masculina daquele país, a que começa no tordilho Native Dancer (“The Grey Ghost of Sagamore”), prossegue com Raise A Native e chega a Mr. Prospector. O que parece ainda mais extraordinário é o fato de todo este sucesso ter sido obtido a partir do uso de um número reduzido de matrizes – máximo de 34 éguas de cria em 1916 – cifra certamente menor que a da maioria dos grandes criadores de sua época.

Na França, o magnata da indústria têxtil Marcelo Boussac (1889-1980) é outro exemplo de sucesso semelhante ao de Lord Derby. Autodidata, centralizador, dono de uma forte personalidade, tendo que abrir seu próprio caminho em meio à plutocracia e a rígida estrutura social francesa, Boussac possui o mérito de ter tentado criar um núcleo de elite dentro da raça puro-sangue, usando como método inusitados e criativos inbreedings sobre quatro reprodutores: Asterus, Tourbillon, Djebel e Pharis.

Nas palavras de René Romanet, seu único e tolerado conselheiro, “o senhor Boussac realmente conseguiu criar uma raça dentro da própria raça: uma raça de qualidade homogênea, composta de cavalos com uma aparência singular de grande harmonia, dotados de um maravilhoso espírito. Quando um deles aparece no padoque de apresentação de Longchamp, é comum ouvir-se o público dizer: “Este é um Boussac!”

Inteiramente infenso à crítica sobre seus conceitos – que descartavam a possibilidade dos pedigrees abertos – o fato é que os defensores das sedas laranja, boné cinza, levantaram 140 provas hoje consideradas de grupo I, vencendo nada menos de doze vezes o Derby francês, cinco vezes o Prix de Diane, seis vezes o Arco do Triunfo e nove vezes o Grand Criterium dos dois anos de idade. Em 1950, seu ano de glória, Boussac realizou o sonho de ser líder da estatística de criadores na França e Inglaterra, quando venceu o Derby de Epsom com Galcador; o Oaks com Asmena; o St Leger com Scratch II; além dos 1000 Guinéus franceses e do Oaks da Irlanda com Corejada. O progressivo declínio de seu império industrial vulnerado pela obsolescência do parque fabril e a concorrência dos produtores asiáticos, coincidiu com a perda do padrão de qualidade de sua criação. Entretanto, o estoque genético por ele gerado em Fresnay-le-Buffard continua a produzir ganhadores e a influenciar fortemente o turfe da Europa, mesmo vinte anos após sua morte.

Seria preciso um livro – como aliás Franco Varola em The Tesio Myth – para tentar explicar a influência de Frederico Tesio (1869-1954) como criador, proprietário e treinador dos próprios cavalos. A diferença entre ele e seus concorrentes europeus era enorme e pode ser resumida da seguinte forma: em primeiro lugar, Tesio criava na Itália, onde as terras são menos férteis que na França e Inglaterra; em segundo, dependia unicamente de seus cavalos para sobreviver economicamente, o que significava não poder errar; em terceiro, a média dos produtos nascidos em seus dois haras girou sempre ao redor de doze produtos por ano (talvez até para mostrar que, pelo menos nesta atividade, quantidade nada tem a ver com qualidade).

Mesmo assim, mais da metade dos pedigrees dos cavalos de corridas de nosso tempo carrega, ainda hoje, quase 50 anos após seu desaparecimento, o sangue Dormello-Olgiata. A esta altura, e diante de percentagem tão contundente, é razoável acreditar que Tesio estava próximo da genialidade em sua profissão, embora genialidade para ele significasse energia, perseverança, trabalho duro, disciplina e, sobretudo, obediência a uma rotina quase sempre estafante. Órfão desde muito cedo, um competente jóquei amador em seu tempo, oficial da cavalaria italiana, Tesio começou efetivamente a criar em 1897. Daí em diante, e até 1954, dominou inteiramente o turfe italiano e impôs sua razza aos quatro cantos do mundo, As obras-primas que construiu – os invictos Nearco, Ribot, Braque e Cavaliere d’Arpino – e os vencedores clássicos Donatello II, Tenerani, Apelle, Bellini, El Greco, Cranach e Niccolo dell’Arca são testemunhos de sua habilidade e competência na produção de cavalos de corridas imortais. Seu sócio e financiador, Mário Incisa della Rochetta, descreve melhor o “método” de Tesio ao explicar que, na verdade, não havia método algum claramente perceptível em suas escolhas e decisões sobre cruzamentos. Salvo a recôndita paixão pelos ganhadores do Derby de Epsom, tais decisões sempre dependeram de um elemento quase místico, descrito como a faculdade de “ouvir estrelas” e “falar com os cavalos”. Foi, entretanto, exatamente desta forma, ouvindo estrelas e falando com os cavalos, que Tesio criou 22 ganhadores do Derby italiano em menos de 50 anos de atividades e provocou uma reviravolta definitiva na indústria do Thoroughbred.

Chefe hereditário, líder religioso e iman de milhões de ismaelistas, o Aga Khan (1877-1957) era também um homem do mundo, com múltiplos e variados interesses – em 1937, por exemplo, foi eleito presidente da Liga das Nações. Assim, as corridas para ele constituíam apenas mais uma de suas atividades, embora os cavalo estivesse presente em sua herança cultural. Para a nobreza persa, de onde provinha, cavalos e a caça sempre foram ingredientes especiais da vida, desde os tempos do império mesopotâmico de Xerxes e Ciro. Entretanto, somente em 1921, aos 44 anos de idade, é que fixou sua atenção de modo concreto no turfe, quando registrou as cores chocolate e verde em listras horizontais, boné chocolate, e contratou o Honorável George Lambton, treinador de Lord Derby, para arrematar alguns yearlings nos leilões de Doncaster. O furacão que, tempos depois, viria a varrer o turfe europeu começava a se formar naquele instante. Vencedor de cinco derbies – um recorde somente igualado por Lord Egremont nos primeiros anos da prova – a coudelaria Aga Khan revelou para as corridas internacionais nomes definitivos como os de Mumtaz Mahal, Teresina, Masaka, Noorani, Dastur, Bahran, Mahmoud, Blenheim, Tulyar, Tehran, Gallant Man, Migoli, Nasrullah, etc.

Sua criação sempre dependeu da opinião e dos conselhos dos vários especialistas que contratou a peso de ouro – os melhores que seu dinheiro podia comprar – limitando-se, ele próprio, a ser apenas o coordenador dessa grande equipe. Entretanto, sua predileção por animais pequenos, de grande influxo nervoso e concentrada vitalidade – do tipo Hyperion, à época – é histórica. Se fosse vivo, certamente Northern Dancer estaria incluído neste rol. A venda para os Estados Unidos e a Irlanda de seus cinco grandes reprodutores – Blenheim, Bahran, Mahmoud, Khaled e Nasrullah – realizada sob críticas dos ingleses que o acolheram, teve influência capital na expansão do turfe da América. A tradição da família de criar e fazer correr bons cavalos prossegue até hoje através de seu neto, o príncipe Karim, atual Aga Khan.

Contrariando as teses defendidas por Marcel Boussac, Arthur Boyd “Bull” Hancock Junior (1910-1972), da Clairbone Farm, comandou o processo de renovação do turfe americano ao final da Segunda Guerra Mundial, a partir do conceito de pedigrees abertos e do international outcross. Sua agressividade, determinação e perseverança na importação das melhores correntes de sangue europeias não encontra paralelo na longa história do cavalo de corridas. Formado pela Universidade de Princeton, Hancock era um pragmático, acreditando, acima de tudo, em “vigor híbrido” (“É a infusão de diferentes correntes de sangue que revigora o animal de corridas”). Suas ações estavam inteiramente de acordo com suas crenças: foi ele quem fez estacionar no pavilhão da Clairbone Farm garanhões de praticamente todas as partes do mundo. Dois anos antes de sua morte, lá se encontravam Ambiorix e Herbager (França); Forli e Pronto (Argentina); Pago Pago e Sky High (Austrália); Hawaii (África do Sul); e Tulyar (Irlanda). Antes deles, em 1942, importou o francês Sir Gallahad III, um filho do notável Teddy, além de Blenheim, Nasrullah, as duas excepcionais éguas inglesas Rough Shod e Knight’s Daughter (mãe de Round Table), o clássico Pricequillo, o tríplice coroado Nijinsky, etc. As cinco condições que exigia de um cavalo, antes de decidir por usá-lo na reprodução, fizeram escola entre os criadores modernos. Reprodutores, dizia ele, têm que: (1) ter corrido aos dois anos de idade e demonstrado habilidade superior à média de sua geração; (2) ter ganho na distância clássica padrão americana dos 2.000 metros; (3) serem sãos; (4) serem totalmente masculinos na aparência; e (5) possuírem o tipo certo de pedigree.

O mundo das corridas não passa de um microssomo da sociedade dos homens. Como tal, é feito de lugares, de rituais e de uma linguagem que se eternizaram com o passar do tempo. Os lugares começam com os haras, ambiente quase sempre de “refrigério, de luz, e de paz”, como aquele, que se ensinava às crianças pedir a Deus, recitando o antigo catecismo das missas dominicais. Dos haras da Europa e da América, com seus piquetes verde-esmeralda, aos da imensidão do campo suavemente ondulado do sul do Brasil, onde os limites da terra só são percebidos no encontro do céu com a linha do horizontem a criação do cavalo de corridas é uma arte que aproxima os homens do que há de mais solene e plácido na natureza.

Do aeroporto de Shannon ao condado de Limerick, na Irlanda do Sul, a estrada de mão invertida serpenteia pelos magníficos platôs do Vale Dourado e atravessa dezenas de pequenas cidades, cujas casas parecem de brinquedo, as portas e janelas pintadas em esmalte brilhante nas cores primárias, branco, vermelho-sangue, verde-garrafa, preto. Ali, encostadas nas paredes de pubs centenários, é possível ver ainda as mesmas bicicletas da década de 1930, à espera de que, no interior dos bares, seus donos deixem passar mais uma tarde na calma descuidada de conversas intermináveis sobre o cotidiano da existência. Nos pastos e ravinas ao redor, o perfeito regime das chuvas e a extraordinária fertilidade do solo fazem a relva brilhar em tons de azul profundo, a blue grass que está na origem da fama da região. Perdidas na relva, brotando do chão como antigas esculturas inacabadas, surgem, aqui e ali, ruínas de torres e fossos medievais, lembrança dos tempos em que os barões celtas e chefes de clã trocavam proteção e refúgio por alimento e sexo com os servos da gleba.

Era nessas torres que homens protegidos por coletes rudimentares de couro e algodão se acotovelavam às pressas para defender a terra e suas vidas quando o alarma vindo da costa anunciava o horror da chegada de mais uma expedição dos invasores do norte. Os gigantes louros de nomes estranhos, Ragnars, Rolfs, Gorms, Svens, Skjolds, que desciam de seus fjords gelados, remavam a mar aberto barcos estreitos de uma só vela e combatiam assim que as quilhas tocavam o fundo lamacento das praias e estuários. Olhando essas esculturas na bruma da manhã, dizem os irlandeses, ainda se pode ouvir o ritmo cadenciado e aterrorizante dos machados de batalha contra escudos circulares, aço carbono contra madeira, prenúncio da formação das linhas para o assalto às fortalezas e monastérios. E ainda se pode ver, à frente das linhas, reis e nobres vikings trazendo semi encobertas pela máscara dos elmos as pavorosas cicatrizes – marcas de honra – dos outros embates, excitados pela antevisão do saque, da pilhagem e da morte, que em sua cultura os homens eram feitos para a glória da conquista, não para uma vida longa.

Hoje não é mais assim. Hoje, ao longo dessa estrada, estão os melhores haras do país, onde as veredas que dão acesso à casa principal são formadas por pilares de nogueiras, cedros e salgueiros, cujos cimos se entrelaçam em gigantescos arcos para sombrear o caminho. Onde a copa das árvores mais novas ainda não se desenvolveu o suficiente, brechas na folhagem deixam passar cones de luz, como nas rosáceas de antigas catedrais, criando no chão zonas alternadas de claridade e sombra. Espalhadas ao longo desses corredores naturais, folhas secas em todos os matizes de vermelho-sangue, cobre o ouro acolchoam o solo e tornam silenciosa a passagem por ali de pessoas e animais, como se todos estivessem usando pantufas e temessem ofender a majestade do lugar. Ao final das veredas, a arquitetura dos jardins junta surpresa ao enlevo da caminhada. Rosas e cravos plantados em círculos concêntricos, as brancas ao centro, depois as amarelas, depois os cálices rubros nas extremidades, fechando os anéis de dezenas de serpentinas do mesmo formato, as corolas entumecidas pelas milhares de pétalas da primavera. Prolongando o delírio visual, alfazemas roxas – lâminas farpadas na ponta dos caules em lança – se misturam em completa desordem aos miosótis, quaresmas, papoulas e azaléias para prolongar o oceano cromático e fazer crer ao visitante que ele se encontra às portas do paraíso.

É claro que nem todos os haras do mundo são assim. Há milhares de outros em vários países, mas todos, cada um a seu modo, representam algo que sempre foi muito caro à alma humana: a posse de determinados animais e pedaços privilegiados da natureza.

Após os haras, vêm os centros de treinamento. No de Chantilly, a trinta minutos de carro de Paris, a floresta parece sempre guardar o som do baque surdo e ritmado dos cascos contra o chão. Quem caminha pela mata na direção do ruído pode ver em meio às clareiras da vegetação os potros puro-sangue circulando montados em fila indiana após terem completado seu treinamento matinal nas pistas da floresta. Sempre esplêndidos, na nudez ingênua dos corpos atléticos, narinas dilatadas pelo esforço da respiração, alguns lavados pela espuma branca de suor, crinas recém esculpidas pelo vento, a trama dos vasos periféricos inteiramente visível, o sangue parecendo querer explodir a qualquer momento e vazar sobre o pelo de seda. Para os iniciados, começa aí o reino encantado dos cavalos de corridas.

Dos haras e centros de treinamento aos hipódromos é um passo. Há hipódromos de todos os tipos e para todos os gostos. Há os pequenos do interior, provincianos, de uma só reta, nos quais, apesar do tamanho reduzido e da aparência simples, são jogadas quantias expressivas em apostas  as mais exóticas na base do “meu-cavalo-contra-seu-cavalo.” Nesses hipódromos, podem-se perder ou ganhar fortunas, algumas amealhadas durante gerações, colheitas, casas, o patrimônio de uma vida ou até mesmo, contam alguns, a mulher de algum apostador de pouca sorte, tal é a paixão que o turfe desperta nas comunidades pastoris.

E há os grandes hipódromos, situados na urbe civilizada, de Tóquio e Hong Kong; do Rio de Janeiro e São Paulo a Cingapura e Macau; de Nova York e Epsom a Dubai. Entre todos, o Hipódromo Brasileiro, na Gávea, Rio de Janeiro, à sombra da estátua do Cristo, entre a lagoa, a montanha e o mar; San Isidro, em Buenos Aires; Longchamp, no Bois de Boulogne, Paris; Ascot, em Berkshire, a quarenta minutos de trem de Londres; e Belmont, em Nova York, estão entre os mais belos e tradicionais. Em suas tribunas, nas ocasiões de gala, desfila uma pequena amostra da sociedade aberta e poliforme de nossos dias. Lá podem ser sempre encontrados os representantes das novas e das velhas fortunas do mundo, misturados a reis e príncipes e aos aventureiros de todas as origens e etnias, todos igualmente tocados pela indispensável presença feminina, a das mulheres de pernas longas e lábios rosados, que foi assim desde a invenção das corridas de cavalos.

E há lugares e ambientes especiais destinados aos leilões de potros, a multidão dos compradores e seus agentes consultando os catálogos de venda e examinando os animais, às vezes durante dias, na renovada esperança de descobrir, em meio à algaravia dos lances e o estalido do martelo, aquele juvenil que se transformará em lenda nos anos seguintes. E quando, pela primeira vez, se compra um potro em leilão, tem início um dos rituais de passagem mais caros do turfe: o do registro do stud e das cores do proprietário.

As cores das blusas que serão usadas pelos jóqueis são uma parte essencial da mística do esporte. No princípio, cada proprietário podia decidir livremente que cor usar, até que em 1750, para permitir aos juízes de chegada melhor distinguir os animais à distância, o Jockey Clube inglês padronizou tonalidades e estabeleceu que símbolos decorativos seriam permitidos. Para o turfe, vermelho não é vermelho, é encarnado; amarelo não existe, existe ouro; marrom se transforma em chocolate; bege claro é palha. E há salmon, solferino, verde pistache, cereja, apricot, púrpura, azul-pavão, todas essas tonalidades destinadas a aumentar o prazer visual e o encantamento das corridas. Na Inglaterra, existem hoje cerca de 700 cores registradas, algumas das quais vêm acompanhando as famílias de criadores e proprietários ao longo de gerações. 

Nos Estados Unidos, onde é permitido abusar dos elementos decorativos, o número de cores registradas é ainda maior. E por trás das cores, quase sempre se esconde a personalidade do proprietário, pois elas podem vir sóbrias e elegantes, alegres e espalhafatosas, simples e fáceis de serem descritas ou excessivamente sofisticadas, de gosto por vezes duvidoso. É verdade que algumas das mais famosas blusas do mundo possuem apenas uma ou, no máximo, duas cores: encarnado, boné encarnado; azul-marinho, boné azul-marinho; rosa, boné rosa; ou preto, boné branco; preto, boné encarnado; laranja, boné cinza; azul-marinho, boné azul-celeste; cinza, boné rosa; branco, boné azul; ouro, boné preto; azul-marinho, boné ouro; verde, boné encarnado. Mas isso não impede outras combinações criativas algumas extremamente felizes como as que misturam as cores primárias, do tipo branco, cinto preto, boné encarnado; branco mangas azuis, boné encarnado, etc.

No que respeita a indústria mundial do puro-sangue, os números podem ser atordoantes. Hoje em dia, nascem carca de 108.000 Thoroughbreds por ano, criados em 36 países. Deste número, os Estados Unidos contribuem com cerca de 33.000 animais e o Brasil com aproximadamente 3.900, sendo o nono maior produtor mundial, atrás dos EUA, Austrália, Argentina, Japão, Nova Zelândia, Irlanda, Inglaterra e França. Existem oficialmente registrados 1.145 hipódromos espalhados no mundo, espalhados por 46 nações, que utilizam, anualmente, ao redor de 226.000 diferentes animais para a formação dos programas de corridas. Mas o que impressiona é o volume anual de apostas em corridas de cavalos: são bilhões de dólares, com o Japão liderando folgadamente a estatística, do alto de seus incríveis US$ 30 bilhões em volume de jogo, em 1998.

Nos leilões de potros e éguas de cria foram gastos pelos compradores em 2001 (até agosto), somente nos países do hemisfério norte, US$ 1,317 milhões, sem mencionar a sindicalização de reprodutores e a negociação de cotas e coberturas. Tais cifras, tampouco, consideram o valor agregado de produtos e serviços destinados à indústria, que incluem, desde a produção de medicamentos pelos laboratórios, à soma dos salários pagos aos profissionais da atividade, mais os empregos diretos e indiretos gerados por ela, bem assim os direitos de transmissão dos grandes eventos, a publicação de jornais, revistas, livros, e as verbas de publicidade.

Certamente, ao inventarem o Thoroughbred e o esporte, os ingleses jamais poderiam imaginar a que nível chegaria o sucesso de sua empreitada. Entre nós, segundo estudo desenvolvido pelo Jockey Club Brasileiro, o PIB da indústria do puro-sangue de corridas indicava a geração de 13.300 empregos diretos, US$ 98 milhões/ano pagos em salários, premiações e contratação de serviços de terceiros, US$ 60 milhões/ano dispendidos com a compra de rações, medicamentos e artefatos diversos e uma população de mais de 106.000 pessoas vivendo ao abrigo da atividade turfística no país (vide “O Turfe no Brasil, Uma Perspectiva Econômica,” JCB, maio de 2.000).

A melhor definição do que pode representar o universo das corridas para alguém, talvez tenha sido dada por Elizabeth Couturié, conhecida como a Grande Dame Des Courses, criadora de Wild Risk e Right Royal V no haras de Les Mesnil, em cujas instalações estagiaram jovens treinadores destinados à proeminência, como François Boutin, Alain de Royer-Dupré, Jeremy Hindley, Henry Cecil e Michael Wyatt:

“Vivi cada dia, todos os dias, uma vida excitante e maravilhosa. Da alegria pelo nascimento dos potros no haras, aos primeiros galopes no bosque; das visitas às cocheiras de Chantilly, às tardes de Longchamp; das viagens ao exterior, à presença nos leilões. Sim, se tudo tivesse que começar outra vez, pediria apenas o privilégio de viver a mesma vida.”