A Guerra dos Carrapatos

Autor: 
Pesquisa Equipe T&B - Embrapa

 

Os carrapatos são os ectoparasitos de equinos mais importantes no Brasil. Além de espoliarem o sangue, eles abrem porta de entrada para miíases e infecções secundárias, irritam os animais e podem causar dermatites. São também vetores dos agentes causais da piroplasmose equina, Theileria equi e Babesia caballi, sendo esta doença um fator limitante para a performance de cavalos de esporte, além de restringir o comércio internacional desses animais. Considerando que a importação e principalmente a exportação de cavalos vem aumentando intensamente nos últimos anos, além de cavalos brasileiros que vão para provas internacionais, o controle desses artrópodes passa a ser muito importante nesse processo. Pelo menos três espécies de carrapatos são comumente encontrados em equinos no Brasil: Anocentor nitens, Amblyomma cajennense e Boophilus microplus.

Na maioria das fazendas, sítios e haras, a prevalência cada vez maior destes parasitas, e a crescente dificuldade em erradicá-los, é fato bem conhecido. O controle dos carrapatos é possível, porém o velho “banho com piretróide” já não basta, pelo contrário, acaba selecionando carrapatos cada vez mais resistentes, e aumentando o problema em pouco tempo. O combate aos ácaros precisa se focar tanto nos animais quanto nas instalações e nas pastagens, e o inseticida mais eficiente tem que ser determinado através de testes de resistência.

Por sorte, a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – desenvolveu tecnologias eficazes para esta finalidade, as quais estão ao alcance de todos os interessados, bastando entrar em contato com a empresa (vide contatos ao fim da matéria).

Falaremos sobre o ciclo biológico das três espécies de carrapato que infestam nossos cavalos, e das medidas mais eficazes para controlar cada uma delas. Ainda que a leitura possa parecer um tanto técnica, é fascinante aprender que algumas larvas e ninfas (estágios de vida imaturos dos carrapatos) sobrevivem na natureza, sem hospedeiros, por seis meses ou mais. Identificar a espécie de carrapato com que estamos lidando nos ajuda a traçar a melhor estratégia de combate, nesta guerra que, Brasil afora, ainda está longe de terminar e muito menos de ser ganha.

ESPÉCIES DE CARRAPATOS QUE INFESTAM OS CAVALOS
Anocentor nitens
Este carrapato é conhecido na América do Norte como “tropical horse tick” e no Brasil como “carrapato de orelha”, pois é encontrado principalmente no pavilhão auricular. Existe desde o sul dos EUA até o norte da Argentina, e é muito difundido no Brasil. É responsável por muitas doenças, incluindo lesões na orelha que levam à perda da rigidez auricular (cavalo troncho). Também é transmissor da B. caballi. Pode se fixar também em divertículo nasal, base da crina, região perineal e ao longo da linha ventral média do corpo, podendo desenvolver massivas populações nos equinos por ele infestados.

Amblyomma cajennense:
A. cajennense, o carrapato do corpo dos cavalos, conhecido no Brasil como carrapato rodoleiro ou estrela na sua fase adulta, “vermelhinho” na fase ninfal e “micuim” na fase larvar, tem sido considerado como uma praga de importância emergente nas áreas de produção animal, como espoliador dos rebanhos equinos e bovinos e, de saúde pública como importante transmissor da riquetsiose nos humanos, a Febre Maculosa. Vários animais domésticos e ampla diversidade das espécies silvestres, mamíferos e aves podem albergar algum estádio parasitário deste carrapato.

Boophilus microplus:
A infestação de equinos por B. microplus está associada com o uso simultâneo de pastagens por equinos e bovinos. Apesar do B. microplus ser um carrapato do bovino, ele pode ser encontrado em várias outras espécies hospedeiras, como cavalos, pequenos ruminantes, búfalos, cachorros e alguns mamíferos silvestres. Nos equinos o B. microplus é frequentemente encontrado no peito e pescoço dos animais, causando uma severa dermatite. Além do mais, experimentalmente tem se demonstrado a transmissão de B. equipor este carrapato. Este carrapato apresenta apenas um hospedeiro em seu ciclo de desenvolvimento, sendo este semelhante ao já descrito para o A. nitens.

DIFERENCIAÇÃO DOS CARRAPATOS

 

CONTROLE BIOLÓGICO E USO CORRETO DE ACARICIDAS
Os tratamentos acaricidas devem ser mais intensivos na primavera e verão, quando os níveis de infestação parasitária são maiores, e a abundância de larvas é maior nas pastagens. O ciclo de vida do A. nitens é menor devido às maiores temperatura e umidade relativa do ar. Devemos pulverizar todo o corpo dos equinos, inclusive dentro do divertículo nasal e região auricular, em intervalos de 24 dias, cobrindo um período de pelo menos 4 meses ininterruptos do ano, na primavera e/ou verão. O volume de emulsão acaricida recomendado é de 4 a 5 litros por cavalo adulto. Após o tratamento os animais devem voltar para o mesmo pasto, pois isto promoverá uma intensa limpeza das pastagens, reduzindo o número de carrapatos que atingirão a fase adulta. Em muitas propriedades é comum o uso de acaricidas tópicos no pavilhão auricular como única medida de controle de A. nitens. No entanto este controle tem se demonstrado ineficiente, devido às populações encontradas em outros sítios de fixação.

Em pesquisa realizada no estado de São Paulo observou-se que os principais fatores associados com a presença e níveis de infestação por A. cajennense em equinos foram as condições da vegetação e da pastagem. Mistura de pastagens de crescimento excessivo, gramas não uniformes e várias espécies de plantas invasoras na pastagem, mostraram ter grande associação epidemiológica com A. cajennense (estabelecimento e desenvolvimento). A presença de pastagens sujas (mato + pastagem) foi associada não somente com a presença do carrapato, mas também com sua maior infestação nos cavalos. Roçar toda a pastagem uma vez ao ano foi a medida mais eficiente para evitar a presença e altas infestações de A. cajennense. Esse tipo de manejo de pastagem é feito principalmente no verão, durante a estação chuvosa, e consiste no rompimento mecânico de toda a pastagem, expondo o solo por várias semanas, até uma nova cobertura de capim se estabelecer. Roçagens periódicas também são fundamentais para manter a pastagem limpa, prevenindo o estabelecimento de plantas invasoras. Como o A. cajennense completa somente uma geração por ano no Brasil, a maior parte do desenvolvimento do ciclo de vida ocorre no solo. Roçando a pastagem e expondo o solo pode-se significativamente romper com as condições microclimáticas ideais para sobrevivência e desenvolvimento do A. cajennense. A ausência de vegetação mais densa também pode desempenhar um papel de ruptura nas condições microclimáticas ideais.

Outra medida recomendada para o controle de A. cajennense é o uso de tratamentos acaricidas a cada sete a dez dias durante o período larval e ninfal. O número de tratamentos em cada bateria varia com o nível de infestações na propriedade, o que exige a vistoria do Médico Veterinário para cada programa instalado. Além disto, o programa deverá prever tratamento de todos os equinos da propriedade num intervalo máximo de três dias para todo o plantel. É também fundamental que os animais sejam retornados ao pasto de origem. Isto porque se espera cada animal se torne uma “armadilha viva” durante o intervalo entre tratamentos.

A dificuldade está no controle da população adulta, pois além de se necessitar de um produto com uma concentração 1,8 vezes superior à concentração indicada para o controle dos carrapatos dos bovinos, na época do tratamento (primavera e verão) temos grande quantidade de éguas em segundo e terceiro estágios de gestação. O uso intensivo e indiscriminado de carrapaticidas neste período pode ocasionar intoxicações e abortos. Para controlar estes problemas em rebanhos pequenos, indica-se que no período de primavera e verão todas as fêmeas ingurgitadas sejam diariamente retiradas dos animais. Para cada fêmea repleta retirada estarão sendo retiradas do campo 5000 prováveis larvas que comporão a geração no ano seguinte. Também se reduz bastante a necessidade de banhos carrapaticidas neste período.

Cabe ao Médico Veterinário a checagem de todas estas normas como condição prévia à implantação do programa em uma propriedade. Sua atuação efetiva no controle das condições de aplicação destes pesticidas resultará numa inestimável ação de saúde pública na proteção ambiental e segurança do trabalhador rural.

Baseados em todos esses estudos podemos dizer que o meio mais eficiente para evitar a infestação por B. microplus em equinos é criar cavalos completamente separados de bovinos. A infestação por A. cajennense pode ser controlada usando acaricidas recomendados nas dosagens adequadas, manter as pastagens uniformes e em condições limpas através da roçagem pelo menos uma vez ao ano durante as estações chuvosas (primavera e verão), quando o crescimento da forragem é favorecido. Infestações pelo A. nitens podem ser controladas através da pulverização de todos os equinos com acaricida por todo o corpo nos intervalos corretos e nas diluições adequadas, principalmente no período da primavera e verão.

PREVENÇÃO E CONTROLE DE DOENÇAS TRANSMITIDAS POR CARRAPATOS AO HOMEM:
• Ter conhecimento da distribuição das principais doenças transmitidas por carrapatos e as espécies envolvidas;
• Evitar caminhar por áreas conhecidamente infestadas por carrapatos, porém caso seja necessário fazer inspeções periódicas a cada 2 horas, para verificar o encontro de carrapatos fixados, assim evitando que o carrapato tenha tempo hábil para inocular o agente;
• Usar barreiras físicas no corpo, como calças compridas, com a parte inferior por dentro de botas, bainhas de tecido elástico ou fita dupla face nas extremidades da roupa e botas;
• Não matar carrapatos esmagando entre as unhas para evitar que agentes etiológicos presentes nos tecidos do carrapato penetrem em microlesões na pele;
• Em animais de companhia manter um controle rigoroso de ectoparasitos, para evitar que estes funcionem como fontes ou reservatórios de doenças para o homem;
• No caso de encontrar carrapatos fixados, retirá-los com a utilização de pinça e pela porção que fica fixada na pele, para evitar, assim esmagar o carrapato e provocar refluxo de líquidos infectados no local da picada.

Elementos essenciais do controle de carrapatos em equinos
• Fazer o esquema de tratamentos nos meses mais frios do ano, época de predominância de larvas e ninfas, que são mais sensíveis à ação dos carrapaticidas
• manter pastagens baixas na medida do possível
• passar vassoura de fogo nas instalações
• rasquear os cavalos para eliminar os carrapatos grandes, presentes nos meses mais quentes
• tratar também as outras espécies animais do estabelecimento pois o carrapato do cavalo é de baixa especificidade, podendo parasitar diversas outras espécies animais.

Fonte: Pesquisa Equipe T&B, fonte: Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
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